Sobre comida, luz e ego

25.12.2017

Este é um texto para reforçar que não trabalho com nada ligado a viver sem comer, não ensinamos as pessoas a deixar a comida, não fazemos parte do “grupo viver de luz”. Nós comemos e nosso trabalho está relacionado ao autoconhecimento, ao equilíbrio de nosso ser, à alimentação consciente, que envolve comer alimentos de origem vegetal, orgânica e com o mínimo de impacto socioambiental possível.  


O Universo é impermanente e isso nos dá a possibilidade de evoluir, através do tempo vamos ganhando experiência e entendimento, precisamos deixar aquilo que não nos serve mais, cultivar a verdade e estar sempre aberto para encontrar uma forma de ver a verdade que esteja ainda mais elevada que a que conhecíamos. Assim funciona com todos que trabalham para o crescimento e o  desenvolvimento do ser. 


Assim foi com minha trajetória e de minha família. Em 2001 fizemos o chamado Processo de 21 dias baseado no livro Viver de Luz, da australiana Jasmuheen; foi uma experiência transformadora, um real divisor de águas. Tínhamos com essa experiência o desejo de nos aproximarmos de Deus, especialmente acreditando que com uma dieta mais sutil estaríamos mais sutis e assim poderíamos estar mais afinados com os campos mais elevados. Imaginávamos que o Processo de 21 dias fizesse isso por si só. Um ano mais tarde, víamos que o Processo de 21 dias é uma ferramenta extraordinária, que nos leva realmente ao vislumbre de um estado de Felicidade plena, realmente nos liberta de muitas amarras, porém, ao terminar ainda temos ego, ainda temos desejo, ainda julgamos, e isso é bastante concreto e real. Se não nos observamos todos os dias, podemos perder essa conexão, mesmo tendo feito o Processo de 21 dias da forma mais adequada. 
Permanecemos nove meses em uma dieta líquida e com alguns dias de “seco" (sem ingerir nada) durante a semana. Voltamos a comer de forma esporádica entendendo que havíamos condicionado nossa liberdade e reconsiderando que a jornada espiritual é longa, exige dedicação diária independente das iniciações que fizermos. No entanto, sentíamos a diferença em nosso estado de ser quando estávamos comendo e quando estávamos só com os sucos, então acreditávamos que era muito interessante, sim, cultivar esse lugar de auto-observação através dessa privação do sentido do paladar, ainda que fosse só um detalhe. 


De 2003 a 2010, me ocupei muito oferecendo palestras sobre o tema Viver de Luz/Alimentação Prânica e nossa experiência com o Processo de 21 dias. Já trabalhávamos com ele desde 2002, acompanhando pessoas nessa experiência; com o passar dos anos fomos entendendo melhor, mas também fomos vendo o tanto que as pessoas ficavam obstinadas pela possibilidade de parar de comer; muitos iam ao nosso encontro com o único objetivo de deixar a comida, sem qualquer relação com a espiritualidade. Havia a crença de que o Processo de 21 dias faria tudo independente do empenho que as pessoas colocassem, desde que seguissem as regras, mas não era assim, sua qualidade depende exclusivamente da competência pessoal de assumir a responsabilidade pelo seu processo íntimo e de como lidar consigo mesmo dentro desse contexto. 


O fato é que sob nossa observação todas as pessoas que concluíram o Processo de 21 dias voltaram a comer. Se o objetivo do Processo de 21 dias fosse fazer as pessoas parar de comer, ele seria um fracasso. Mas como um instrumento de desenvolvimento pessoal que ele realmente é, tem uma função espiritual brilhante, e não é a realização de desejos do ego, não tem a ver com uma poção que nos dá super poderes. Sabíamos que sua finalidade era outra, mas ainda acreditávamos que o quesito não comer era importante para despertar esse algo mais, pelo menos quebrar padrões de crenças. Em função disso seguíamos falando sobre a possibilidade de viver sem comer, mesmo como um detalhe que não deveria ser o foco, mas estava sempre presente em minhas palestras. As pessoas associavam isso à minha predominante dieta líquida e fui ganhando essa fama de que não comia.


Em 2010, durante um circuito de palestras em Israel, meu irmão Samadhi e eu tivemos contato com uma forma de ver a Verdade muito mais lúcida e real do que vínhamos vendo. E, sim, por mais doloroso que fosse abandonar nossas convicções, nós a acolhemos: Promover o não comer é gerar distração no caminho espiritual. 


Nós quase fechamos o centro onde recebíamos as pessoas, até entender que o Processo de 21 dias é independente da ideia de viver de luz, que tem um propósito profundo de auto-aprimoramento e desenvolvimento da qualidade de Presença. E o trabalho ficou bem mais potente, bem mais profundo, mais verdadeiro e eficiente quando o enfoque foi reconhecido, e isso se soma à manutenção de uma frequência vibratória mais elevada no cotidiano. Tem transformado a vida das pessoas de verdade e isso inclui como lidar com o alimento depois do Processo!


Desde a realização desse entendimento em 2010, passamos a não utilizar mais o nome Viver de Luz ou Alimentação Prânica para então trabalhar com o termo Consciência Prânica - A elevação do padrão vibratório por meio da Consciência ao nível frequencial da sincronicidade ou do campo dos infinitas possibilidades. Com isso o Processo de 21 dias ganhou muito mais significado, assim como pequenos ajustes pontuais que o tornaram mais maduro e acessível.


Declarar que como não é uma novidade; além de minhas publicações nas redes sociais e vídeos, tenho meus relatos e descobertas descritas nos livros publicados (o primeiro em 2008).


Fui convidado a participar de quatro encontros "prânicos" pelo mundo e antes de acertar minha ida eu falava com a organização: "Olha, eu vou falar contra o que se tenta divulgar"; as quatro vezes foi aceito assim e foi o que eu fiz. Sempre afirmo: "Divulgar o não comer é divulgar distração". Aproveito para falar dos perigos da fixação nos poderes sobrenaturais, e  as pessoas agradecem muito, pois se identificam obcecadas por essa possibilidade, a de deixar de comer, que acredito ser real, porém para os mestres iluminados que transcenderam o ego, não para nós ou pelo menos não para mim. Todas as pessoas que conheci que viviam de luz eram santos, todas as pessoas que conheci que divulgavam o viver de luz comiam. 


Há sete anos venho trabalhando em desmistificar essa ferramenta de autoconhecimento, desconstruir a idealização de que o Processo de 21 dias fará alguém um iluminado, tornará alguém plenamente livre ou um super-herói, com efeitos especiais e superpoderes, como por exemplo a capacidade de viver sem comer… são apenas feitiços do ego, o ego espiritual em particular, ele quer ser espiritualmente especial. Ou simplesmente vê aí a oportunidade de não ter que lavar louças, cozinhar e ter que fazer compras… tenho me empenhado em desmanchar essa ilusão, especialmente a ilusão criada em torno de mim. 


Há muito que fazermos antes de desenvolver qualquer poder extrassensorial, como por exemplo não mentir, não ser violento nas palavras, nos gestos, não ser controlador, não ser egoísta, não ser machista ou preconceituoso, não perpetuar os dramas de controle e assim ser mais leve, amoroso, pacífico, verdadeiro, íntegro... mas pessoas querem parar de comer e não querem se trabalhar ou talvez acreditem que parando de comer essas coisas deixem de existir por si só… tudo continua existindo e o que não precisamos é de distração. Precisamos ser fiéis às diretrizes internas e para isso não precisamos deixar de comer, o essencial é invisível, é simples, é aqui, é agora.


Hoje percebo o quão importante é nos disciplinarmos com a forma de nos alimentar, isso é parte de nosso desenvolvimento espiritual também, saber como, quanto e o que comer é muito importante e não podemos pular essa fase. Depender da comida não é um problema, como lidamos com ela é que pode ser. Podemos fazer jejuns, dietas líquidas por um tempo, mas o que conta é o controle sobre o próprio ego, isso envolve muitas coisas, inclusa essa relação com a comida. A comida é uma bênção, e deve ser tratada assim, nossa comunhão com a terra. Mas o ego quer matar o ego, e de fome.


Com certeza ter uma vida consciente envolve olhar para o que colocamos no prato em termos de sua qualidade e também procedência, acredito muito que não há qualquer necessidade de parar de comer para estar plenamente em harmonia com a natureza. O que a jabuticabeira espera de nós? Que levemos suas sementes para outro lugar; suas cascas não são lixo, são adubo; sua polpa, nosso alimento; sua semente, uma floresta em potencial.


Fazemos parte dessa rede, desse processo. Alimentando-nos de frutas e castanhas, não participamos da grande engrenagem que destrói o planeta, e se temos como comprar de sistemas agroflorestais, ou melhor ainda, fazer nosso próprio sistema agroflorestal, teremos uma gama incrível de alimentos sem degradar nada, pelo contrário, ajudando na regeneração. É certo que não precisamos comer em grandes quantidades, tanto mais meditamos, mais presentes estamos, menos ansiedade, menos comida é necessária, mas não há nada de errado no comer de forma consciente.


Reconhecemos o poder do jejum, seus benefícios, e o recomendamos, mas de forma prudente e com os devidos cuidados. Nós praticamos jejuns, temos temporadas de líquidos, nos faz muito bem, contudo comer de forma consciente também muito nos auxilia, crescemos muito ao tomar essa prática tão corriqueira como uma disciplina que nutre o observador, exercita e plena atenção, desenvolve a permanência no Presente e pode auxiliar em questões mais abrangentes.


Eu não faço parte desse grupo que divulga o viver de luz. O folclore que se criou sobre mim, embora eu nunca tenha afirmado que não como, tem fundamento, sim, diante do meu discurso e a dieta predominantemente líquida, mas isso é baseado em um Oberom de quase 10 anos atrás. 


Desenvolvamos a disciplina de silenciar e agradecer todos os dias, trabalhar o contentamento, reconhecer o quão extraordinária é essa experiência de viver nesse corpo e interagir com todos esses fenômenos,  aceitar a vida como ela é, e é espetacular! Sem perder a motivação de ir lapidando aquilo que reconhecemos como desequilíbrio dentro desse cenário magnífico. Assim, podemos ir cultivando valores e dando passos em nossa própria evolução, sem pular nenhuma etapa. Tenho certeza que no final dessa jornada seremos muito agradecidos pela paciência que tivemos, pois nos permitiu viver, viver cada momento mágico que a vida nos oferece, veremos os tropeços, mas se sobressairá o nosso desfrute, pois a vida é isso, uma jornada linda que pede que caminhemos sem pressa para ter mais atenção nos detalhes do caminho. 


Boa jornada a todos! Namaste


 

 

Precisamos ser fiéis às diretrizes internas e para isso não precisamos deixar de comer; o essencial é invisível, é simples, é aqui, é agora.

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