A espiritualidade no ativismo vegano

25.04.2018

 

 

Certamente, é um tanto delicado incluir a religião nos diálogos sobre a postura vegana, especialmente quando o intuito é difundi-la à sociedade, já que cada indivíduo tem sua preferência, inclusive religiosa. Por isso, a importância de tratá-la como algo que se adeque a todos os grupos, com a maior neutralidade possível. E não como um segmento isolado.

 

E como existe uma tendência natural de estigmatização do movimento abolicionista animalista, a velha necessidade de rotular, é necessário cuidar desse aspecto para que o ativismo seja mais efetivo. Pois, para o rotulador, a postura vegana torna-se uma escolha que faz parte de algum grupo por ele determinado, do qual ele não faz parte, e assim não se identifica com aquelas verdades expostas e – impermeável à realidade que a postura vegana desvela – ele não muda. Por esse motivo, é recomendável que não se envolva o discurso religioso no ativismo vegano.

 

 

No entanto, a espiritualidade é laica e trata de valores universais, visando o aprimoramento do ser humano. E a pessoa espiritualista não precisa necessariamente ter uma religião ou fazer parte de um segmento dogmático ou ser leitora de livros espíritas.

 

Amor, Paz, Compaixão, Gratidão, Solidariedade ou a vontade de viver, por exemplo, são aspectos espirituais; a espiritualidade está relacionada com expressões mais sutis do ser humano, como os outros sentidos (pressentimento, intuição etc.), aquilo que dizemos que vem da alma, que vem de dentro, inclusive a Empatia. Elementos internos que sustentam o caráter, a índole, o ego de cada indivíduo; aquilo que está além das sinapses, qualidades que a ciência tenta traduzir bioquimicamente, mas que tem um sentido muito maior que a química em si; que nasce do espírito, por isso, espiritualidade. Não há a necessidade de usar o termo espiritualidade para tratar da própria espiritualidade. Tampouco é necessário citar um líder espiritual ou particularidades de uma doutrina específica para abordar a espiritualidade.

 

 

A palavra animal vem do latim anima (alma, sopro, alento), designa um ser que tem “espírito próprio”. Aquele que é uma inteligência antes da inteligência cognitiva. Muito comum usarmos a expressão “escute o seu coração”, ou seja, devemos nos sintonizar com a essência que nós somos, essa inteligência, alma/espírito, que opera nossa consciência e nos conduz à ética.

 

O que ocorre é que comumente o discurso espiritualista vem sempre associado a um segmento religioso, porque de fato os grandes mestres eram espiritualistas, tornavam-se religiosos quando seus seguidores institucionalizavam seus ensinamentos, transformando o discurso espiritualista em um discurso religioso. Por isso é fundamental que haja o cuidado em se ater aos princípios espirituais, sem associá-los a um determinado grupo. E levar os valores espirituais no discurso vegano não gera o conflito, ou afastamento; ninguém se opõe a conversar sobre Amor ou sobre recolher-se para trazer mais sentido à vida; talvez não dê certo se a argumentação vier com um tom místico e esotérico.

 

Quando se expõem fórmulas mágicas para se alcançar o Amor e técnicas transcendentais para se ter Paz, o discurso espiritual é invalidado por todos aqueles que têm uma vivência mais pragmática e novamente vários animais perdem com isso.

 

 Se falarmos do que sentimos e de nossa experiência, tocamos o coração das pessoas, a alma delas, desde aí nasce a decisão de aderir ao que dentro já se afirma ser certo.

 

 

Algumas pessoas precisam do discurso científico, mas a maioria é tocada quando sente na alma, quando vê o filme do animal desesperado, pedindo ajuda com os olhos; a pessoa nem consegue explicar, dói dentro dela, em um lugar que não é no corpo... ou quando vê uma criança falando algo sobre os animais desde aquele lugar puro e inocente, toca algo lá dentro, o argumento nem precisa ser inteligente, a pessoa sente a verdade – que é sutil, ela atina essa verdade que está nela mesma, essa verdade que é da alma. Levando-a à decisão de assumir essa responsabilidade de não fazer parte da engrenagem de exploração dos seres inocentes, que sentem como nós, são sencientes. Depois ela começa a se inteirar dos dados e explicações científicas que vão reforçar sua convicção.

 

 

 

Publicado originalmente na revista Vegane

 

Créditos das imagens: Santuário Vale da Rainha, Adrian Steirn, Tippi Degré.

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